sexta-feira, 15 de maio de 2009

Vidas, sinais e travessias

A vida de Joana para a cada série de faixas brancas intercaladas com espaços pretos do asfalto. A sequência estende-se ao infinito. A neutralidade das cores machuca na memória mais quente. Em todas as esquinas as lembranças voltam lá de um passado longínquo e inquietante. E não há volta. A angústia cicatrizou, mas as marcas ainda se fazem presentes em um único sentimento, a dor. A lágrimas, enfim, já secaram.

A freada da van é ensurdecedora. Incomoda profundamente. Aquela sinfonia desajeitada resgata tudo o que se quer somente esquecer. “Animal!”, dispara Joana àquele condutor que ousou ultrapassar o semáforo vermelho. O mundo havia lhe dado um sinal verde. Ela teria, então, a chance de seguir. Atravessaria a calçada, com a enorme sacola para as compras embaixo do braço. Quando os caminhos estão abertos, só resta a Joana viver, mais um dia, ao lado da morte.

E a morte nunca mais a deixou. “Foi assim que minha filha se foi. Faz 26 anos já. Ela tinha só dez anos, e estava na 4ª série. O ônibus virou a esquina com o farol fechado e pegou minha menina quando atravessava a rua, ali na frente do Colégio Sagrado Coração de Jesus. Minha vida nunca mais foi a mesma”, contou rapidamente Joana, enquanto seguia com passos acelerados pela calçada após atravessar tantos obstáculos, sendo um deles o seu passado.

Joana dá uma pausa. Precisa respirar, recuperar o fôlego. Afinal, já lhe roubaram um sopro de vida. “Custa parar?”, pergunta, indignada. “É só colocar o pé no freio.” Em cinco minutos de espera, a pressa abafada teria dado a possibilidade de existência de mais uma vida, fantástica como tantas outras. Essa já é interrompida. “Fiquei um ano sem sair de casa. Por causa disso, hoje eu fiquei assim, ó.” Ficou, sem dúvida, atordoada. Joana só quer falar. Não, não. Joana também quer ser vista. “E deixa eu correr, meu filho. Faço salgadinhos para festas e tenho uma encomenda para hoje.” É, dona Joana, vá com deus.