segunda-feira, 20 de julho de 2009

Encontros, reencontros e despedidas

Sábado foi daqueles dias para chorar uma tristeza causada por uma felicidade sem fim. Quem na vida nunca sentiu tristeza por estar feliz? Eu já. E nesse dia tornei a sentir. Momento daqueles em que a gente sabe que a felicidade vai passar e, de imediato, só resta lamentar o curso preciso do tempo, com um segundo atrás de outro. Bom é saber que um novo segundo atrás de outro virá outras vezes para trazer mais felicidade e mais tristeza também, até que um dias as luzes da vida se apaguem.
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Nesse dia, em um encontro com velhos amigos reencontrei pedaços de mim que já havia deixado no meio do caminho,por desmazelo, e descobri que, em outros encontros, me fiz cada vez mais novo, sempre diferente, mas sempre tão igual. Parece clichê, mas somente grandes amigos, como os que eu orgulhosamente tenho, conseguem mostrar quem eu realmente sou e certamente comigo, mesmo sendo eu tão diferente, eles descobrem quem de fato são.
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O casamento da Claudia e do Werner, nesse dia, foi encontro, reencontro, despedida de ‘sis’ ‘consigos mesmos’. Um momento para relembrar o passado, viver o presente e lamentar a distância do futuro promissor, sabido de todos feliz. Porque a vida é assim, seu curso segue, seu ritmo acelera. E, nessa pressa, assim de modo despercebido, quando a gente menos espera e já vê, Poliana segura meu braço e somos, juntos, como amigos e meio-irmãos, testemunhas de um amor grande, de um sentimento de verdade. Diferentes, mas iguais, a gente só confirma uma verdade.
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A gente se fez, e a gente ainda se faz, mas, de tudo, o mais importante é olhar para o que somos e percebermos que fizemos tudo certo. Nesse dia, singelo e simples, ao reencontrar os amigos vi a certeza, a convicção, a exatidão das minhas escolhas tão humanas. O passado, num presente tão distinto, se passou ali, num filme com os mesmos protagonistas – Jesus, Pikachu, Vivis, Poliana, Werner e Claudia. Nesse espetáculo, faltaram pessoas muito bem estimadas – Cris e Renata.
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No presente, cercado pelo passado, pela verdade dos sentimentos e pelas lembranças de tempos carregados de inocência, fé e esperança, é impossível não chorar. Chorei. E chorei várias vezes. Ainda vou chorar, como agora. Nesse dia, reencontrei o sentido da felicidade que já havia encontrado por várias vezes e em várias ocasiões vividas com sentimentos de verdade. O sentido da felicidade é simples e, para encontrá-lo, basta viver.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Vidas, sinais e travessias

A vida de Joana para a cada série de faixas brancas intercaladas com espaços pretos do asfalto. A sequência estende-se ao infinito. A neutralidade das cores machuca na memória mais quente. Em todas as esquinas as lembranças voltam lá de um passado longínquo e inquietante. E não há volta. A angústia cicatrizou, mas as marcas ainda se fazem presentes em um único sentimento, a dor. A lágrimas, enfim, já secaram.

A freada da van é ensurdecedora. Incomoda profundamente. Aquela sinfonia desajeitada resgata tudo o que se quer somente esquecer. “Animal!”, dispara Joana àquele condutor que ousou ultrapassar o semáforo vermelho. O mundo havia lhe dado um sinal verde. Ela teria, então, a chance de seguir. Atravessaria a calçada, com a enorme sacola para as compras embaixo do braço. Quando os caminhos estão abertos, só resta a Joana viver, mais um dia, ao lado da morte.

E a morte nunca mais a deixou. “Foi assim que minha filha se foi. Faz 26 anos já. Ela tinha só dez anos, e estava na 4ª série. O ônibus virou a esquina com o farol fechado e pegou minha menina quando atravessava a rua, ali na frente do Colégio Sagrado Coração de Jesus. Minha vida nunca mais foi a mesma”, contou rapidamente Joana, enquanto seguia com passos acelerados pela calçada após atravessar tantos obstáculos, sendo um deles o seu passado.

Joana dá uma pausa. Precisa respirar, recuperar o fôlego. Afinal, já lhe roubaram um sopro de vida. “Custa parar?”, pergunta, indignada. “É só colocar o pé no freio.” Em cinco minutos de espera, a pressa abafada teria dado a possibilidade de existência de mais uma vida, fantástica como tantas outras. Essa já é interrompida. “Fiquei um ano sem sair de casa. Por causa disso, hoje eu fiquei assim, ó.” Ficou, sem dúvida, atordoada. Joana só quer falar. Não, não. Joana também quer ser vista. “E deixa eu correr, meu filho. Faço salgadinhos para festas e tenho uma encomenda para hoje.” É, dona Joana, vá com deus.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Eu sou bonito, gente

Olhou para todos os lados em busca de si mesmo. Encontrou os fragmentos de uma vida euforicamente triste por todos os cantos, refletidos em todas as paredes revestidas, de cima a baixo, por metros e mais metros de espelho. Perdeu-se, a princípio, e necessitou da colaboração sacana daqueles que estão à sua volta para seguir um caminho simples, embora tortuoso. Era uma sacanagem. Sacaneado, errou os passos, porque acredita na busca de um vasto vazio, preenchido por um bom saldo na conta bancária.

Na volta, ainda sem o inútil valor que ambiciona, pediu um drinque e, sem a mínima vergonha, depositou-o em uma conta que não era a sua. Juntou desconhecidos àquela mesa, porque precisava de afeto. Sentou no largo sofá preto, cruzou as pernas, fez pose. Sacou um cigarro, pediu fogo, e tragou. Respirou fundo para começar a contar vantagem e riu, desesperadamente, de tudo. Por dentro, de si, chorou e, à medida que escondia as lágrimas, garantia ser feliz.

Ele negou a sua origem, apesar do sotaque inegavelmente carioca. De certo, para fugir de um passado verdadeiro, distante de um presente falido e frustrante para um futuro incerto na busca dos bilhões (de reais, dólares ou euros), das roupas de grife, do celular hi-tech, do carro de luxo, da mansão no sul da França. Pouco importa de onde vem, substancial é saber aonde quer chegar. “Eu morei em Nova York”, resumiu o cidadão do mundo, ao dizer que lá é só o começo. “Porque eu trabalho com moda, né?”

Queria falar, mesmo sabendo que muitos não estavam mais dispostos a ouvi-lo. Sua pressa em afirmar a felicidade extrema gerou desconforto. Era um cruzar de pernas atrás do outro, de cada espectador aflito diante de tanta ansiedade. Talvez fosse mentira, talvez houvesse ali uma migalha de verdade. Sobrou e contaminou o ambiente o excesso de vaidade. “Eu sou bonito, não sou? Eu sou bonito. Gente, eu sou um cara muito bonito. E comigo é assim: fiquei com um cara de dois metros e, se ele quiser, que me ligue amanhã, porque eu tenho autoestima alta. E eu aprendi a gostar de mim, de verdade”, tagarelou, en-lou-que-ci-da-men-te.

Disparou a falar do quanto é bonito, do quanto é legal, do quanto é especial, do quanto é inteligente. “Sou adepto da teoria da Xuxa. Presta atenção, cara, na riqueza da letra de ‘Lua de Cristal’. ‘Tudo que eu fizer/Eu vou tentar melhor do que já fiz/Esteja o meu destino onde estiver/Eu vou buscar a sorte e ser feliz’. ” Cantou, ritmadamente, para se convencer de que falava bonito e profundo. Desconcertados, os interlocutores se abismaram.

Sem ouvir ninguém, sem ter curiosidade pela história de vida daqueles que o cercam, sem enxergar a riqueza da vida e das vidas, foi se apagando. Afinal, seu drinque chegara ao fim. De pronto, após algumas outras exclamações, deu um salto. Estava pronto para partir, após tanto falar e nada ouvir. Deu dois beijos, tipicamente cariocas, em cada uma daqueles que expressavam nas faces o horror ao nada. Não havia o que se fazer. Era um caminho perdido no fundo do espelho. Para Bruno, a felicidade é uma aparência. Basta ver. Só lhe falta o sentir, para, enfim, um dia ele vir a ser.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Um tempo já vivido

Para cada ano, uma só palavra:

1 - Vida
2 - Inocência
3 - Delírio
4 - Flores
5 - Curiosidade
6 - Aprendizagem
7 - Mudança
8 - Capricho
9 - Novidade
10 - Paixão
11 - Inteligência
12 - Sintaxe
13 - Preparação
14 - Decepção
15 - Fé
16 - Escolha
17 - Ruptura
18 - Descoberta
19 - Consciência
20 - Revelação
21 - Medo
22 - Valorização
23 - Ousadia
24 - Ida
25 - Volta
26 - Esperança

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Túmulo do Samba

Depois de dois anos de cobertura de carnaval da Redação, finalmente ontem foi dia de conhecer na avenida o desfile de uma escola de samba. Na segunda noite do Grupo Especial das agremiações paulistanas, assisti às apresentações de Acadêmicos do Tucuruvi, Gaviões da Fiel e Vai-Vai. Acompanhei também a evolução de Mara Kelly Silva - uma rainha -, do Rei Momo 2009 e dos mestre-sala e porta-bandeira garis. Fenomenal.

Da primeira escola, com um desfile apressado para dar conta de concluir a apresentação dentro de 1h05, saudei Roberta Zawit, colega das Artes. Imponente, ela surgiu, em destaque, sobre um carro alegórico. Logo após a Tucuruvi, o sambódromo se agitou com o anúncio da entrada da Gaviões.

O público enlouqueceu, toda área foi ocupada pela torcida organizada do Corinthians, e bexigas brancas e pretas forraram as arquibancadas para dar boas-vindas à escola - de arrepiar. Só lamento não ter visto Sabrina Sato, porque, durante sua passagem, estava no banheiro, me livrando dos copos de chopes.

Sem dúvida, o momento mais emocionante foi o desfile da Vai-Vai. A agremiação distribuiu bandeiras por todo o sambódromo e o público executou uma coreografia fantástica para receber a escola do Bexiga. Na empolgação, virei até amigo de uma dos destaques das quadras e da arquibancada. Sambei como mestre-sala. Pulei como um folião. Rodei como uma baiana. E nada se igualou à emoção da passagem da bateria, estonteante.

Esperava, no entanto, mais histeria do público e muito samba, muito agito, muita alegria, mais emoção. Achei as pessoas cansadas demais diante um espetáculo tão grande. Do sambódromo da Pan-América de Áfricas utópicas, túmulo do samba, levo uma certeza: agora só me falta conhecer o carnaval da Sapucaí.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Esse, sim, é rei - uma manhã de Cartola

Alvorada
Cartola
Composição: Cartola / Carlos Cachaça / Hermínio Bello de Carvalho


Alvorada lá no morro, que beleza
Ninguém chora, não há tristeza
Ninguém sente dissabor
O sol colorindo é tão lindo, é tão lindo
E a natureza sorrindo, tingindo, tingindo
( a alvorada )
Você também me lembra a alvorada
Quando chega iluminando
Meus caminhos tão sem vida
E o que me resta é bem pouco
Ou quase nada, do que ir assim, vagando
Nesta estrada perdida.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Conteúdo, simples assim

No banheiro, uma reflexão existencial:

Boy 1 da Vila Olímpia na Vila Madalena: E a velho, tudo bem?!
Boy 2 da Vila Olímpia na Vila Madalena: E aê, beleza, véi!
B1VOVM: Tudo certo! Vai dar um mijão?!
B2VOVM: Hehe. Vou, sim. Quer segurar meu pau pra eu não deixar cair a cerveja?!
B1VOVM: Hehe. Tô fora.
B2VOVM, mijando: E aê, véi... Tá uma merda hoje, né? Cheio de cocota no salão.
B1VOVM, mijando também: É, cara. Tá foda, viu?! Tem muita mina aí, mas a maioria é cocotinha, sim. Assim, não vou foder hoje.
B2VOVM, lavando as mãos: Vamos jogar futebol amanhã à tarde?
B1VOVM, na porta: Porra, véi. Não vai dar. Amanhã eu vou plantar a vara na Dani.
B2VOVM: De novo, cara. Você já estava comendo a Dani, né?
B1VOVM: É... De novo. Se ela gosta, eu planto rola.

Pobre Dani.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

No seu justo lugar

Foi simples, bom e passageiro, meu caro. Não tenho dúvidas. Quem disse para você que eu precisava de qualquer gesto nobre? Ei, eu só quis por uma noite, uma única noite, a luz do seu minúsculo quarto acesa. No dia seguinte, senti sono, e lamentei por saber que foi em vão. Era para ser só uma noite e nada mais.

Se você acreditou por algum vago momento que eu esperava um sentimento, um afeto, um sorriso inocente, lamento dizer que errou por pretensão. Num dia desses, você há de se enforcar com o cordão da vaidade que, com orgulho, carrega imponente em seu pescoço fino. Não se descuide. Ela ainda pode matar.

Por hoje, vamos deixar tudo lúcido e não toquemos mais neste assunto: não quero discutir uma relação que não existe, sobretudo num tom de crise existencial mulherzinha. Eu não cobro nada, não. Você, de fato, não me conhece. Só quero prazer. Muito tempo tempo atrás, quando estive com você, era só prazer o que eu queria. Não quero mais.

Entenda que, naquela noite, me alegrou rolar na sua cama, revirar seus lençóis. Me agradaram os beijos, com teor etílico. Me satisfizeram o suor, os olhos fechados, a saliva. Agradeço pelos braços enlouquecidos e afoitos. Todo esse pouco bastou por uma noite. No fim, apenas não bastaram seus chinelos, que, como simples 39 com jeito de 38, ficaram apertados em meus pés tamanho 42.

Logo vi que não caibo no seu mundo e você, no meu, se apresenta demasiadamente limitado. Não procuro detalhes, busco a imensidão. Não se assuste, não chore, mas a você pude apenas reservar um justo espaço entre as minhas insignificantes miudezas.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Good bye

Vai tarde, mas deixa que eu fecho a porta.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Abismo

Eu fecho os olhos. A queda parece infinita. Só não choro porque eu tenho a certeza de que você vai me salvar.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Você ainda vai me entender

Como lamentar a ausência de quem nunca veio? Como reagir a uma dor que nunca se sentiu? Como viver sem enlouquecer enquanto se espera a felicidade? Passei a madrugada a refletir sobre questionamentos como esses, em batalha travada com minha mãe. Juntos, buscamos possíveis respostas para eles.

Para justificar a força crônica de suas opiniões, de tal modo irrefutáveis, ela lembrou saudosamente dos seus tempos de adolescência e dos sonhos todos interrompidos. Recordou as travessuras mais que proibidas, as fugas silenciosas, o primeiro beijo inocente, a precocidade das vontades, o desespero dos sentimentos. Ela viveu tudo novamente a ponto de encher os olhos de água, ao rever as cenas perfeitas de um passado recente projetadas à sua frente, como numa apresentação cerimoniosa de slides.

Cada resgate é um novo mergulho profundo lá na memória e, das profundezas, ela subiu em pânico, e tensa, sem ar e afoita. Procurou os culpados por suas tristezas e os encontrou. Sentenciou todos eles, sem piedade. De tanta amargura por querer simplesmente uma oportunidade para amar, ela sepultou um. Abdicou de outra. E de mais um sentiu apenas clemência.

Hoje, sonha, se diz jovem e talvez pronta para viver. Não se conforma com a falta do coração disparado, das mãos suadas, do fogo de paixão. Teme, no entanto, desilusões e sofrimento. Mesmo assim, diz que, se pudesse, se exporia a dor e também a enfrentar qualquer tufão. Atitude de coragem.

Argumento, então, que não deve sofrer por ninguém. Resta aos fortes, sobretudo, gostar de si mesmo para nunca se deixar pisar por ninguém. Calculista, digo que seria capaz de curar qualquer ferida de amor sozinho, sem medo, sem choro, sem angústia. E blablablá, blablablá, blablablá. Solenemente ela desdenha, ironicamente fuzila: “Você só diz isso porque nunca amou na vida. Uma hora isso vai acontecer e aí você, com certeza, vai me entender”. Sábias palavras, simples assim. De certo, eu ainda vou entender.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Pra sempre

Nada supera a beleza do céu de qualquer cidade do interior: uma imensidão preta sempre repleta de estrelas. Quando as olho, sonho com as noites ao seu lado para, assim, contá-las infinitamente, sem pressa. Serei, então, capaz de buscá-las, embrulhá-las e entregar-lhe uma a uma, a cada novo dia. À sua espera, condeno-me a passar as noites acordado. Com medo da perda, não fecho os olhos para evitar a fuga silenciosa de estrelas rebeldes. Me tranquilizo, porém, porque dizem que umas nascem, outras morrem. Mesmo assim, não permito dor nem choro. Por isso, eu vigio as noites e, atento às estrelas, zelo pelos sonhos. Quando encontrá-lo no agito cinza, prometo uma aventura. Longe vamos juntos contar as estrelas, que safadas brilham para os nossos sonhos. Infinitas, elas sempre vão existir. Lembre-se: enquanto umas morrem, outras nascem. Vamos, então, contá-las, porque, morrendo e nascendo, nossos sonhos sempre viverão.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Tempo roubado

Momentos de felicidade só existem quando se vive em tempo roubado. Quando as horas se fingem congeladas, enquanto, na verdade, avançam simplesmente transbordantes de prazer. Você não as vê, jamais as sente. Entregue, então, a muitas sensações, torna-se difícil limitar virtual e real durante o andar acelerado, justou ou arrastado dos ponteiros da vida. A velocidade quem define é você. Cria-se, então, o seu tempo, o meu tempo. Por essa liberdade, eu gosto de tempo roubado. Esse só é um tempo para se viver.