quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Conversa em família

Adoro, mentira, reunião de família em fim de ano. Meus parentes em meia hora de conversa conseguem apresentar assuntos suficientes para preencher uma pauta de qualquer especial de retrospectiva. Ontem em uma verdadeira mesa redonda todos tiveram voz, em postura de especialistas, para opinar com convicção sobre absolutamente quase todos os fatos mais relevantes de 2008. Sobraram reflexões principalmente acerca das grandes temáticas do ano, como Eloá Pimentel, Isabela Nardoni e Guerra em Gaza.

Os comentários são ótimos. Há quem mude a entonação e alinhe a coluna para falar. Enquanto as pessoas mais queridas do mundo esbanjam ponto de vista, eu emudeço. Entre as frases prontas, até tento um esboço de argumentação com um ‘não é bem assim’, ‘veja bem’, ‘não se pode radicalizar’, ‘assim não é certo’, ‘é preciso dialogar’. Ponderações todas infelizmente que não tiveram efeitos práticos.

A cada afirmação, faço uma cara de espanto. Você sabia, por exemplo, que judeu não acredita em deus? É, isso mesmo. Não acredita, não, revelou-me uma tia ao falar sobre o conflito no Oriente Médio, “onde o povo gosta de se matar”. “É ju-deu”, disse ela lentamente, assim mesmo, com separação silábica, na tentativa de explicar a origem etimológica da palavra. “Não, judeu acredita em deus, sim. A palavra judeu vem de ‘aqueles do Reino de Judá, nascidos na Judéia’, tia”, tentei, em vão, explicar. “Ah, mas eles esperam a vinda de Jesus Cristo até hoje. Eles mandaram crucificar Jesus porque não acreditavam que ele já estava entre nós”, disse, com cara de ‘te peguei’.

Sagaz, meu pai dispara: “Você sabia que Jesus foi o primeiro socialista? Ele quis fazer uma revolução semelhante àquela que completa 50 anos em Cuba”. As frases não têm ordem, surgem do nada para o terror da platéia. “Pai, nem tanto. Jesus disse: ‘dai a César o que é César’. Ou seja, ele disse que os judeus deveriam, mesmo sendo explorados, pagar os impostos a Roma. Então, ele é tão revolucionário assim como você está dizendo”, tentei ponderar. Minha outra tia, evangélica, olhou para mim, com cara de ‘o que você está falando, seu imbecil?’ e rebateu: “Jesus era honesto. Você tem de pagar imposto, sim. O que o governo vai fazer com seu dinheiro é problema dele”. Meu deus, onde eu fui parar?

Anna Carolina Trotta Jatobá, acusada de matar Isabela Nardoni, de 6 anos, e que, agora presa em Tremembé, vive entre as detentas evangélicas, tem direito a perdão. “É, tem sim. Só não vai ter perdão nesta vida quem blasfemar contra o Espírito Santo”, afirmou a evangélica. Isso é um lobby, mas um lobby, um lobby, para todo o sempre, amém. “Como pode, né, um avô saber que seu filho matou sua neta e continuar a defender o próprio filho?”, disse um tio. “Eu li na Veja que a comida que levam na visita dá para alimentar a cadeia inteira.” Leu? “É, eu li.”

Deus perdoa, é pai. Entregou seu filho Jesus por nós. Ele pregou o amor e disse que deveríamos amar uns aos outros como a nós mesmos. Por isso, Anna Carolina está perdoada. Deus é amor, diz o lema de uma igreja pentecostal. Ele, no entanto, sádico, abre algumas exceções para seus filhos. Vem a condenação: “Deveriam ter matado o Lindemberg logo após entrar no apartamento”, disse uma prima. “Tinha que fazer como fazem nos Estados Unidos. O brasileiro da Swat falou que tinha de matar nas primeiras horas. Ele saiu de lá todo estourado, machucado. Eu acho que bateram foi é pouco”, completou outra tia evangélica. “Se você mata, vem depois aquele povo dos direitos humanos!” Sobe BG de vaia aos direitos humanos. Em seguida, diante da indignação coletiva, sobre BG de aplausos para os discursos mais justiceiros.

Aí, por fim, começam as especulações sobre como deveria ter sido o desfecho do caso Eloá Pimentel, de 15 anos. “Eu também acho que deveriam ter atirado no Lindemberg logo no começo”, disse o tio. De repente, eis que surge um sinal de lucidez. Uma tia disse que o maior erro foi Nayara, de 15 anos, ter voltado ao cativeiro com autorização da polícia. “É. Se bem que não sei não, viu. Acho que aquela menina queria mesmo era se aparecer. Eu acho que elas eram namoradas, porque ele dizia que ia matar a ‘Barbie’ dela”, emendou para acabar com qualquer esperança de luz entre as trevas. “Eu sempre achei que aquilo estava com cara de safadeza”, sentencia meu tio. Depois disso, meus ombros se curvam, e minha expressão de decepção entrega a minha inevitável derrota.