terça-feira, 2 de setembro de 2008

A dez dias dos 26

Custei a acreditar, mas, sem medo, hoje sinto que a vida segue mesmo um caminho sem volta. Perto de aniversário, quando o tempo escancarado bate à porta, começo a recordar de tudo o vivido até agora. Para meu desespero, começo também a imaginar como teria sido tudo aquilo que por algum capricho próprio, azar ou escolha de alguém eu deixei de viver.

A dez dias dos 26, olhei para o espelho e não me enxerguei lá. O tempo não tem dó. Me deixou lá atrás, e, como um trator, atropelou boa parte dos meus planos, principalmente os mais ingênuos. Cada linha de expressão, mancha na pele, rugas (sim, elas já existem) narram a história de uma dor, de um sorriso, de uma decepção, de uma felicidade sem fim em minha face. A dez dias dos 26, vejo cabelos cada vez mais escassos, embora estejam ainda fartos. Vejo mais cabelos brancos que insistem a surgir entre aqueles que já foram todos pretos. Enxergo outro em mim. Não há piedade.

Lembro, a dez dias dos 26, que no ano passado também me olhei no espelho. Não vou mentir: eles já estavam brancos, mas eu ainda estava lá. O amor também estava lá. E eles já estavam branco e charmosos ao lado do rosto. A dez dias dos 26, surgem novas manchas, agora no topete. Clareando, só sei que deixo de viver um pouco a cada respiração mais ou menos ofegante. Um a um, os fios ficam brancos, se apagam lentamente, enquanto as cortinas caem em marcas fortes e pesadas pelo meu rosto. Tem-se o encerramento de um espetáculo, a despedida de um palco.

E esse palco vida fica aí até se cansar à espera de novos atores e autores. Outros entram em cena, outros morrem, mas histórias nascem. Na caminhada, o espetáculo, antes do cair das rugas, tem seu clímax. Tem seu grito de esplendor. Justifica-se, então, o nascimento. É quando se vive, para lá na frente com todas as rugas, se poder recordar.

A dez dias dos 26, quero cada vez mais me permitir viver. Assumo, por isso, todas as rugas, todos os cabelos brancos, todas manchas na pele. Não omito nada. Jovem ou velho quero apenas mais um pouco viver. Não quero nada de mais. Só preciso hoje, ontem e amanhã viver e, para sempre, ter muitas e boas histórias para contar. Só isso, nada mais, hoje, a dez dias dos 26.

2 comentários:

FRAg® disse...

Vale lembrar que aquilo que ficou para trás nos ensina a não perder novas oportunidades no futuro. É assim, com o olhar maduro (talvez mareado) enxergar em cada fresta as possíveis portas abertas.

Abraços deste

Leitor de Rascunhos

Thiago disse...

É por instantes como esse que cada entrada no palco vale a pena. Deixe os brancos chegarem, deixe as cortinas se abrirem. Só não fique na coxia, esperando o tempo passar.