segunda-feira, 22 de setembro de 2008

A inocência e o cinismo de André

André tem o olhar da curiosidade, o sorriso da inocência. Carrega há 27 anos a culpa do pecador. Ele vai do céu ao inferno, e volta, em uma noite. André tem, a princípio, gestos de dúvidas, mas, ao fim, o corpo lhe entrega e entrega a todos somente certezas. Os desejos se soltam e, para isso, basta um canto, uma flex, um bubu quaisquer. Há também o glória. Lá ou lás, ele chega puro, suja-se, lambuza-se. Limpa-se. Despede-se pretensamente puro, em um ciclo recorrente, constante. É sempre assim.

O jovem vendedor, ex-vendedor, hoje gerente em transferência para o comando de "uma grande marca" em Porto Alegre, diz que só segue pelos cantos da vida de meu deus porque ama e vive de moda. "Gosto de gente bonita, bem vestida, elegante, inteligente", diz, como quem, obviamente, apenas quer justificar um gosto suspeito para o padrão imposto. "O sexo não me atrai até aqui. Venho mesmo porque gosto de dançar, sabe?" Sei. Diz com tanta ênfase que se torna por um instante impossível desacreditar.

André, como trabalha com vendas, mas na glamourosa função de gerente, e isso é importante ressaltar, vive de consumo. Em um mundo de responsabilidades ambiental, social, jurídica, consumir incessantemente sem um miligrama de peso na consciência não pega bem. Ele, porém, dá de ombros a esses novos velhos valores. "O que mais me chama a atenção aqui é o fato de as pessoas serem consumistas mesmo, assumidas. Elas valorizam as coisas boas da vida, gostam de comprar. E eu adoro consumir", escancara o vendedor, ex-vendedor, gerente.

Consumo, para André, sintetiza claramente o conceito de poder. Ele pode comprar, mas não basta apenas adquirir. O vendedor, ex-vendedor, gerente tem estilo. E isso ele também compra. "Tenho uma camiseta como aquela", diz, apontando para um magrinho que requebra em um ponto central do canto. "A minha, lógico, é original. Paguei R$ 480 por uma Lauren Ralph igualzinha", desafia. “Nele, não fica bem. Em mim você acha que ficaria?" Talvez, querido. Talvez.

O mundo alegre de André resume-se, então, a consumo, poder, glamour, forma. Pouco importa conteúdo. Resume-se também às sensações narcotizantes. Talvez sejam esses os seus caminhos alternativos. "Quer um pouco?" Não, obrigado. E, nesse jogo, nessa fuga, insiste negar as reais motivações de sua existência, de sua presença. Acuado, dispara sem pensar resposta pronta. "Eu gosto de buceta", rebate ao baixar o nível quando questionado sob maior pressão. "Você me acha um cara apresentável?", pergunta como quem ameaça ceder para, por aquele momento, massagear o ego e inflar. Sim, acho sim. "E interessante?" Não. Não acho, não. Mesmo diante desse não, André sustenta um sorriso de cinismo, um olhar de devassidão.

domingo, 14 de setembro de 2008

Promessas

Do Orkut
"Você viajará para muito longe."

Do William
"Só se for para Engenheiro Marsilac."

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

"Que vida, meu deus?"

Dona Maria, como tantas outras marias deste mundo de deus, apenas vive um dia após o outro em busca de algum sentido que lhe faça um pouco feliz. Ela tem passos vagarosos. Resta-lhe paciência, falta-lhe pressa. É perceptível que não faz esforço nenhum para correr contra o tempo. Acostumou-se a se escorar no ponteiro do relógio ao giro arrastado de cada segundo mais que inconveniente. Ela não quer correr porque tem medo, muito medo, de cair. Esquálida como está, dificilmente essa senhora de 50 e poucos anos, mas que aparenta no mínimo ter uns 70, conseguiria juntar forças para se reerguer de um simples tropeço.

Ontem, apressada, dona Maria seguia um caminho, que se cruzou com os destinos de tantos outros estranhos daquele vagão. "Esse trem vai para a Marechal Deodoro?", perguntou, enquanto, surpreendentemente, apertou os passos. "Sim, senhora. Pode entrar", respondeu uma jovem estudante. E, assim, ontem, pelas poucas vezes nessa vida tão severina, dona Maria acelerou as pernocas rígidas. Para um sofrimento tão evidentemente expresso nas tantas rugas de seu rosto até que dona Maria tem coxas bem bonitas. Ela almejava, sem saber o porquê, uma coisa só: sair da Estação Anhangabaú e chegar à Estação Marechal Deodoro.

Eram duas estações, e nada mais, mas, no meio do caminho de dona Maria, havia um abismo. Acelerar foi um erro. Ela deveria, sim, ter esperado o próximo trem. A próxima composição vinha logo atrás e dona Maria sabia bem que a espera é sempre a melhor solução para os problemas bem pesados de sua vida. Talvez esse trem viesse mais vazio, e o trem de dona Maria estava por demais lotado. Em meio a tanta gente, ela confessou sua solidão.

Em um golpe de falta de sorte, ela caiu em um fosso. E, por instantes, diante dos olhos de todos, a vida lenta de dona Maria não passaria de uma tragédia, encerrada com o fechamento da porta daquele trem. "Ai, meu deus!", gritou uma senhora. "Alguém segura!", exclamou outra. Bolsas foram lançadas para o alto, e coube aos homens agarrar firme os braços finos de dona Maria. A campanhia tocou. As portas foram travadas. O corpo franzino, enfim, resgatado. A viagem seguiu.

Dona Maria, visivelmente transtornada, seguiu ainda assim bem devagar. Sentou-se. Todos olharam-na sem nada entender, após um susto. "Está tudo bem com a senhora, meu Jesus?", questionou uma qualquer. "Sim, sim. Está tudo bem. Eu só vou para Marechal Deodoro", disse, exalando um odor etílico descomunal para às 14 horas. Calmamente, dona Maria deslizou suavemente as mãos fechadas sobre os cabelos curtos, ondulados e brancos, cuja vaidade tenta escondê-los em uma cor amarelo desbotada - dona Maria e todo mundo sabe que ela precisa retocá-los. Seus olhos dão uma piscada forte. Ela sentenciou-se, então, ao silêncio e, já perdida na Estação Barra Funda, deixou rolar uma lágrima ao ouvir: "A senhora precisa tomar mais cuidado. A vida é uma só." Desbaratinada, perguntou: "Que vida?" Pois é, que vida? A sua, dona Maria. Só a sua.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

A dez dias dos 26

Custei a acreditar, mas, sem medo, hoje sinto que a vida segue mesmo um caminho sem volta. Perto de aniversário, quando o tempo escancarado bate à porta, começo a recordar de tudo o vivido até agora. Para meu desespero, começo também a imaginar como teria sido tudo aquilo que por algum capricho próprio, azar ou escolha de alguém eu deixei de viver.

A dez dias dos 26, olhei para o espelho e não me enxerguei lá. O tempo não tem dó. Me deixou lá atrás, e, como um trator, atropelou boa parte dos meus planos, principalmente os mais ingênuos. Cada linha de expressão, mancha na pele, rugas (sim, elas já existem) narram a história de uma dor, de um sorriso, de uma decepção, de uma felicidade sem fim em minha face. A dez dias dos 26, vejo cabelos cada vez mais escassos, embora estejam ainda fartos. Vejo mais cabelos brancos que insistem a surgir entre aqueles que já foram todos pretos. Enxergo outro em mim. Não há piedade.

Lembro, a dez dias dos 26, que no ano passado também me olhei no espelho. Não vou mentir: eles já estavam brancos, mas eu ainda estava lá. O amor também estava lá. E eles já estavam branco e charmosos ao lado do rosto. A dez dias dos 26, surgem novas manchas, agora no topete. Clareando, só sei que deixo de viver um pouco a cada respiração mais ou menos ofegante. Um a um, os fios ficam brancos, se apagam lentamente, enquanto as cortinas caem em marcas fortes e pesadas pelo meu rosto. Tem-se o encerramento de um espetáculo, a despedida de um palco.

E esse palco vida fica aí até se cansar à espera de novos atores e autores. Outros entram em cena, outros morrem, mas histórias nascem. Na caminhada, o espetáculo, antes do cair das rugas, tem seu clímax. Tem seu grito de esplendor. Justifica-se, então, o nascimento. É quando se vive, para lá na frente com todas as rugas, se poder recordar.

A dez dias dos 26, quero cada vez mais me permitir viver. Assumo, por isso, todas as rugas, todos os cabelos brancos, todas manchas na pele. Não omito nada. Jovem ou velho quero apenas mais um pouco viver. Não quero nada de mais. Só preciso hoje, ontem e amanhã viver e, para sempre, ter muitas e boas histórias para contar. Só isso, nada mais, hoje, a dez dias dos 26.