segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Pesos e medidas de Nicole

A vida de Nicole pesa 11,2 litros de silicone. São 600 mililitros empinados em cada mama e mais 10 litros perfeitamente distribuídos em cada curva que uma certa enfermeira de coragem, hoje detenta, lhe delineou. Tanto peso dá dores nas costas. Vai doer, doeu e ainda dói. "Pesa demais. Eu vou trocar (as próteses) no ano que vem. Vou colocar uma bem menor, de 400 mililitros em cada seio", diz, ponderada e atenta à sua saúde. Nicole conta que exagerou na dose para agradar às "bichas" ou, em outras palavras, aos seus clientes. "Eu preciso ficar bonita. Com 32 anos, ainda dou um bom caldo." Ela deve dar.

Nicole chegou a São Paulo há dez anos. Seus traços - pele morena, olhos puxados e cabelos lisos - não negam sua origem. A meio índia nasceu no Amazonas. Assim que chegou, ela precisou se transformar. "Nossa, as aplicações (de silicone industrial) doeram demais. Não faria isso de novo, não. Mas a mulher (enfermeira, hoje detenta) fez um bom trabalho. Nunca tive nenhuma complicação." Pois é, de fato, hoje ainda está tudo no seu devido lugar, bem ajeitado em um corpo de mais de 1,80 de altura.

A travesti, que antes da balada deu expediente na Rua Augusta, embora negue, demonstra medo. "Dizem que dá câncer, né? Ainda não senti nada." Confessa, no entanto, que, quando está com as "bichas", precisa tomar certos cuidados. "Não posso levar nenhuma pancada forte. Nenhum tapa mais agressivo. Se sofro um esbarrão qualquer sinto dores horríveis (por causa do silicone)", diz, revirando os olhos e torcendo a boca, com dentes alinhadíssimos, brancos e bem tratados. Fez uma carinha de dor.

Mesmo que não dê detalhes nem afirme, é presumível que na época em que chegou precisou trabalhar e, para isso, ficar bonita. Há uma década, Nicole certamente não tinha dinheiro suficiente para se siliconar em uma clínica médica padrão. "Dinheiro não é problema", rebate ela, quando questionada sobre a escolha do silicone líquido. "Já ganhei muito dinheiro, meu bem, só com programa. Roubei muitas 'bichas', mas hoje eu parei porque elas ficam violentas e batem na gente", revela. Nicole conta que já viu muitas amigas literalmente "fodidas" por quererem bancar as espertinhas com as "bichas".

Fugindo de confusões, Nicole quer apenas curtir a noite. Aos engraçadinhos que a comparam com as famosas da vez, como a mulher melão, ela somente reserva o desprezo. "Olha, a mulher melão!", diz um barbado, meio abolhado. "As pessoas hoje em dia não têm delicadeza", diz, com ar de superiodade e desdém. Nicole, porém, não se importa com a curisiodade alheia. "Só quero respeito. Outro dia uma amapô (mulher) veio apertando, esfregando minha marca de sol. Eu disse: "Pára! Isso aqui, minha querida, é resultado de muito bronzeamento artificial, que eu pago. Tira a mão de mim!' Eu quero respeito." Nicole não é brava. "Aperta aqui, ó (no meio dos seios). Eu tenho a divisão." De fato, tem. "Aqui", diz apontado para todo o seu corpo, "é tudo meu", inclusive, o megahair loiríssimo.

Nicole parece não esperar muito de uma noite. Exigiu uma Smirnoff Ice, bem gelada. Foi a uma sala escondinha para dar um trato (que sabemos bem qual é). Ela precisa de alegria. Entre uma volta e outra, fez paradas obrigatórias no banheiro para fazer xixi em pé, claro. "Meu salto ainda é agulha", diz ao sair do reservado do toalete. Ainda é. De frente pro espelho: "Estou bonita". Sim, sem dúvidas está. Deixa o banheiro toda cheia de si. Nicole desaparece e leva consigo o peso de uma vida.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Sem palavras

Hoje meu pai partiu para o Paraná, mas num pedacinho de papel, deixado sob o teclado, me presenteou: “Meu filho, você sabe o quanto eu te amo. Nunca estará sozinho. A cada passo seu, eu gostaria de poder ser o chão para você pisar. Quero ser sempre a porta para o seu sucesso. Todo dia que faço comida vejo você chegando e falando: ‘Hummm. O que tem para comer?’ Te amo” A voz embargou, as palavras sumiram, a lágrima rolou.