terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

E foi bom!

Mapa GLS ganha points até na periferia

Para ativistas, novelas e Parada ajudaram a reduzir preconceito

William Glauber

As noites de sábado começam e terminam animadas no número 12.983 da Avenida Sapopemba, em São Mateus, zona leste de São Paulo, embaladas por ícones gays como Madonna, Cher e Whitney Houston. Distante do eixo República-Consolação-Jardins, o Guinga's Bar é exemplo da expansão das fronteiras GLS da cidade, com abertura de bares e danceterias no extremo sul e em cidades da Grande São Paulo. Entre os fatores para esse crescimento estão a Parada Gay e a presença de personagens homossexuais em novelas.

Points surgiram no Carrão e no Tatuapé, na zona leste, no Ipiranga e em Interlagos, zona sul, e em Santo André, Osasco, Carapicuíba e Mogi das Cruzes. São alternativas aos "velhos" points do centro, embora os ambientes sejam parecidos, com hits pop para meninos e apresentações de MPB para meninas, além de karaokê.

"Essa visibilidade era impensável em locais na periferia, até poucos anos. Gays tendem a ir para o centro, porque lá são invisíveis", diz Beto de Jesus, secretário para a América Latina e Caribe da International Lesbian and Gay Association. "Mas, com uma Parada Gay que atrai milhões, cria-se clima favorável à aceitação."

Na periferia, as relações cotidianas são mais estreitas. "Conheço bares do centro, mas freqüento aqui porque estou perto de casa e fico entre amigos", diz Michael Douglas dos Santos, de 18 anos, que costuma ir ao Guinga's, evitando viagem de duas horas até o centro.

Outro ponto é a praça de alimentação do Shopping Metrô Tatuapé, que lota nas noites de segunda. Na Penha, o Diva's Bar reabrirá no mês que vem, após ter funcionado de 2004 a 2006, em Itaquera e depois no Aricanduva. "A zona leste é gigante, e têm muitos gays e lésbicas aqui", diz a analista de marketing Fabiana Rodrigues, de 25 anos, que mora em Itaquera e freqüenta o Babadu's Bar, no Carrão. A dona, Regina Gomes, diz que abriu o Babadu's a pedido de amigos.

Distância não é problema para o supervisor de atendimento Everton Silva, de 26, que sai de Osasco para se divertir com o namorado. Em vez do centro, eles vão ao Boteco Ouzar, no Ipiranga. "Aqui o ambiente é voltado mais para casais", explica.

Em Interlagos, Mari de Souza, de 43, toca a Reencontros, que tem DJ e shows de drag queens, há dois anos. "O público é eclético. A maioria é fiel, até porque somos a única casa gay aqui." Em Carapicuíba, gays e lésbicas dançam na Rainbow. Em Osasco, há o Point Mix; em Santo André, shows de drags são "sagrados" no Santo Pastel. Em Mogi das Cruzes, a Up Club agita a noite.

Essa aceitação foi influenciada pela TV, diz o sociólogo e pós-doutorando em Ciências da Comunicação pela USP Ferdinando Martins. "A dona de casa, quando vê o Bruno Gagliasso sofrer por amor na novela das oito (América, da Globo, de 2005), vê que aquele sentimento faz parte da vida. Continua existindo preconceito, mas em menor grau."

A mudança se reflete na auto-estima dos homossexuais. "Não tive problemas (com homofobia) e, se me chamarem de sapatão, não estou nem aí", diz a vendedora Hendy de Lucena Silva, de 21, que vive em São Mateus e, quando pode, leva até a mãe ao Guinga's.

O Estado de S. Paulo, Metrópole, Domingo, 24 de fevereiro de 2008.

Força

Eu ando meio cansado e meu corpo começa a dar sinais de fraqueza. Minha mente não é tão brilhante a ponto de encontrar uma saída negociada e inteligente para o impasse que me prende ao nada. Eu já tentei, obviamente, me livrar destas toneladas de aço amarradas à minha mente, que, por pesar sobre meus pés, impedem de me mover. Por estar atado, sinto a dor da consecutiva e incessante derrota – mais um fracasso. Tentei com marreta, serrote, socos e até pontapés inúteis soltar-me de uma prisão auto-destrutiva. Continuo atrelado aos meus pesadelos. Eles me perseguem na escuridão e nos raios do sol. Hoje, em sonho, a lua amarela falou comigo e prometeu uma casa no campo, jardim, lago, montanhas e céu azul de dia ensolarado, sem nuvens. Quando eu acordar desta sessão de tortura implacável, vou encontrar o caminho da leveza, porque a ausência me espera e, a partir dela, construo uma nova história branda. O peso cansa, é isso, mas ainda não consigo me desvencilhar do sofrimento e da angústia. E gosto disso. Quero momentos de alegria intercalados com tormentos. Quero felicidade, moderada, comedida, comportada. Se eu me puser a gargalhar, corto minha sandice por plena realidade. Não me basta ilusão. O corpo cansa, mas tem força para seguir com as correntes densas presas ao tornozelo. Não quero compaixão nem quero gesto de caridade. Eu, só, ainda chegarei lá.Quando me encontrar, eu me descubro, enxergo você e, enfim, me percebo no mundo, leve e forte.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Não é fácil

Não insista. Vai ser difícil acreditar. Impossível pensar. Custoso agir.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

De aniversário, e-mail e guloseima

Anne dizia à tarde que estava gripada e que, por isso, não poderia comemorar aniversário, mas, como não deixo momentos únicos em boteco passar desapercebido pelos capítulos da história, exigi a presença da gaúcha de marra na mesa de sempre. Inesperadamente, parti cedo em direção de oito chopes, bolinhos de arroz e pasteizinhos de carne, queijo e carne seca com abóbora. Larissa, que à tarde já sabia previamente de toda a projeção da noite, chegou, como de costume, logo depois, mas hoje nem digo que estava atrasada porque adentrou ao costumeiro bar apenas quando pôde.

Como disse, foram oito chopes, para mim. Cinco para Anne. Três para Larissa, porque, veja bem, chegou depois. Eu acredito que Lalá tenha tomado cinco chopes, mas hoje ela resolveu superfaturar (para baixo) e insistiu, contundentemente, no teorema dos três. Para rir como rimos, paquerar como paqueramos, tagarelar como tagarelamos, somente sob o efeito do álcool. Por isso, o guaraná Antártica, com gelo e laranja, nesta noite, não me convenceu.

Muitos diálogos, muitos gringos – ouvi, pelos menos, três idiomas –, muitos sorrisos a nós se insinuavam. Dignos, mantivemos os bons modos. Nessa mistura cultural, nesse caldeirão antropológico, nessa efervescência noturna, Anne, a aniversariante, foi desejada várias vezes: pelo boy grandão de boné – útil para abrir os caminhos -, pelo uruguaio da melhor idade e pelos casados cafajestes. Ao redor, cansaram-nos todos e somam-se ainda a eles as bichos-grilo (feias, em estilo Maria Bethânia), os feios (muito carecas) da mesa ao lado e os jovens esquisitos da outra mesa ao lado – justiça seja feita à cueca preta.

Ao lado, bem ao lado, amigos da cueca-preta-justiça-seja-feita, errantes fatais eram a caricatura (de tão feia) em forma de gente, acompanhada de uma deusa, e o paulistano- meu que passou o carnaval em Olinda e no Recife, e por isso trajava camiseta de Pernambuco. Aos berros, o sem-noção cantarolava o hino da folia de Olinda e frevos alegremente. Aos berros também, ele contava para todo o bar suas peripécias turísticas, sexuais e profissionais. Enfim, ele consiste em “erro”.

Na busca dos melhores ângulos, quase quebrei o pescoço. Valeu a pena. Anne garantiu que houve recíproca, e logo se tornou oportuna a entrega de e-mail, fina e digna, incumbida a Larissa, com majestade do alto de seus pouco pra lá de um metro e meio. Larissa, em busca de sucesso próprio, também saracoteou pelas mesas, pelos corredores, pelo balcão. Todo esforço para entregar um número de telefone ao um-metro-e-noventa-e-poucos-superbem-tatuado-no-braço. Anne cumpriu a missão graciosamente.

Beliscos daqui, cócegas de lá, beijos de cá, saímos os três mais uma vez realizados. A noite só se tornaria completa com um sincero “Parabéns a Você”. Houve impasses: Alemanha queria torta de limão, Ceará queria torta de morango e África queria torta de chocolate. Sem consenso nesta conferência da ONU, cada povo levou, em porções menores, as partes que lhe caberiam. Para agradar a todos, velinhas e Coca-Cola Zero esquentaram e refrescaram a festa. Fim de noite no sofá, colheradas calóricas para acalmar, companhias queridas para alegrar revelaram que o bom da vida são estes dias, assim, imprevisíveis. Anne e Larissa, é bom de mais ter vocês.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Fica assim combinado...

Amigos,
Fica assim combinado:
Uso de All Star é facultativo até os 30 anos de idade e expressamente proibido a partir dos 31. Avisem-me caso queira insistir bancar de menino quando, de fato, já seremos todos homenzinhos maduros, ok?
Sem mais,
William.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Já vêm

Para escrever bem, basta saber organizar os pensamentos. Questão de técnica que, quando somada a uma dose de talento, aprimora-se para perfeição. Hoje estou incompleto, e isso até pode ser bom. Tenho dificuldade imensa para sistematizar algumas sensações neste espaço que é só meu e que poucos conhecem. Turbilhão de acontecimentos me impede de usar frieza e praticidade. Hoje eu tive mil idéias geniais de postagens, e um tanto de pretensão não faz mal a ninguém. Cogitações que ainda não se tornaram reais. Eu queria falar de tudo, acabo por não dizer nada. Precisava, hoje não quero mais, registrar os últimos fatos. Não consegui. Reviveria detalhadamente as noites dançadas. Beberia cada momento de embriaguez. Sonharia novamente o beijo que se mantém. Feliz, eu me perdi. Satisfeito, não quero me encontrar. Logo, a técnica e o talento voltam. Acho que fugiram de ciúme.