sábado, 12 de janeiro de 2008

Você não vive aqui

Eu já senti sua mão fria encostar em meu pescoço. Senti seus dedos tensos percorrerem por trajetos insinuantes. Senti calafrios. A pele arrepiou a cada toque nos ombros, no peito, nas costas. Já me afligiu o calor ofegante, a pressa instantânea, a angústia inexplicável. Meu corpo, em suas mãos, já anunciou um possível gozo. Já senti vida. E, antes disso, seguimos trilhas tortuosas e distintas, mas com objetivo único - satisfação pessoal e, portanto, egoísta.

Nesse jogo, eu optei por passos largos que, a cada tropeço, resultariam em queda livre ao chão. Você, mais esperto, talvez, tenha escolhido manter os pés juntos, em saltos medidos e curtos. Você também buscou, onde não devia, a estabilidade, nem que, para isso, tivesse de gerar interpretações dúbias sobre todos sentimentos. Eu, enlouquecido, subi a escadaria sem recorrer ao corrimão. Você, livre, agarrou-se firme nas paredes, sem pestanejar, sem a mínima chance de cair. Eu garanto que o encontrei na escuridão solitária, enquanto que você jura ter me visto graças a fortes raios de luz, e na noite.

Vejo seus olhos hoje, mas não enxergo nada além. Pode parecer absurdo, mas não vejo nenhum ânimo. Dói, porque quero vida. Já senti vida. Você sorri para mim, mas tenho nos pensamentos apenas rabiscos de felicidade. Isso, desculpe-me, não é sorriso. Eu vejo olhos. Eu vejo-os bem arregalados. Desculpe-me porque, contudo, isso não é olhar para mim. Eu até sinto, sim, o calor de sua pele, o peso do seu corpo e a força de suas mãos, mas desculpe-me, mais uma vez, pois isso somente ainda não é vida.

Talvez, ou quase que certamente, você não entenda tais palavras. Isso também não se faz necessário. Na verdade, cada uma das palavras tem significados próprios e, sobretudo, exatos. De certo, você terá, sim, dificuldades para entender esses pretensiosos pensamentos inconvenientes. Eu lamento, mas não vou assassiná-los. Vou mantê-los vivos. E, por isso, saiba que, com ou sem você, quente ou frio, cego ou vidente, feliz ou triste, apenas reafirmou que quero é vida. E, hoje, apenas constato que você não vive comigo.

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