quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Lembranças do interior

A insistente goteira de água da chuva no pé da janela relaxa e aumenta a pressa tranqüila do sono. O vento rasteiro refresca a noite de um longo dia quente. Sem camiseta, estiro o corpo no chão para desdenhar dos segundos. É permitido não fazer nada, não pensar em nada. Aproveito, então, para libertar pensamentos aparentemente acorrentados.

Perdido em fatos passados que se agitam nas idéias neste último dia de interior, recordo de muitas fases bem-vividas aqui. A tempestade de verão resgatou lembranças do tempo em que cantar e dançar na chuva, por exemplo, eram motivos de uma alegria desmedida.

Os momentos de felicidade eram realmente gratuitos. Lavar o quintal e oferecer-se nobremente a ajudar a avó nesse afazer doméstico em troca de um libertino banho de mangueira apresentava-se como vantajoso negócio. Sob os esguichos de água, o sorriso bobo estendia-se brilhantemente de lado a lado, ao pé de cada orelha. Às vezes, os abusos de comportamento, como teimosia e birra, resultavam em doloridas tamancadas da tia paciente, mas também enfezada quando provocada à exaustão.

Naqueles tempos, e não faz tanto tempo assim, o bom mesmo, com ou sem permissão dos adultos, era pedalar pela cidade sem fim. Traçar novos caminhos, desbravar um curto horizonte, dominar talvez o próprio destino anunciavam-se ações possíveis. Era bom demais peladar, correr, nadar, cair, levantar.

Eram melhores as partidas de vôlei no portão com bola de futebol pesada. Os braços ficavam vermelhos. Doía, mas a brincadeira não cessava. Bons eram os jogos de bétis, ou taco, na “movimentada” avenida da pacata cidade. Contra o arremesso certeiro, bastava o grito “taco na linha”. Lembro-me até mesmo das cusparadas nojentas e fortes nos tacos para selar o fim da partida e comemorar a vitória.

Como as férias estendiam-se por meses e a disposição para viver não tinha fim, acompanhava as tias nos seus expedientes em órgãos públicos. Uma, por mais de 20 anos, organiza sistemática e esteticamente a biblioteca de uma escola estadual. Letra linda tem essa minha tia. A outra rodou por diversos setores até chegar à assistência social, onde eu descobri em dias de inverno implacável do Sul que o Sertão também é aqui. E, no “serviço”delas, eu palpitava em tudo.

Havia também tarde no sítio. Lá encantavam a nascente do rio, o riacho limpinho, os cavalos e os bois soltos no carreador, o verde a perder de vista, as casas de madeira, a escuridão da noite e as imensas parreiras carregadas de uva.

Quando na cidade, após saracotear, como diz minha avó, era chegada a hora de voltar para casa no finzinho de tarde. O ritual repetia-se. A avó fazia café e, do forno, tirava a forma com pães caseiros quentinhos. A margarina derretia no pão, mas o mais gostoso era quando molhava a fatia de pão no café. Tudo era muito simples, tudo era muito bom. Todas recordações que formam o que sou e revelam-me o quanto eu já vivi. Hoje, na casa da minha avó, eu molhei o pão no café. Hoje, eu vivi.

Um comentário:

V.D.S. disse...

Viver tem sentido quando é simples assim :)