sábado, 29 de dezembro de 2007

Paquera no salão

Não, 2007 não acabou, mesmo. Eu queria fechar este ano e iniciar 2008 com um visual novo. Apenas novo e não diferente porque não é possível revolucionar os meus cabelos, assim como eu faço, quando quero, com minhas idéias igualmente enroladas, quase crespas. Ciente de que deveria aparar os cachos, fui, então, atrás de um salão em Maringá. Eu não tenho referências quando o assunto é meu próprio cabelo, eu corto em qualquer lugar, sem muita distinção, mas com a exigência de sempre.

A primeira idéia foi a seguinte: o cabelo de minha mãe, que mora aqui há quatro anos, está legal, está, digamos, ok. Logo, eu vou cortar com a cabeleireira dela. Após disparar a ligação, a frustração, pois a japonesa competente trata apenas de longas madeixas femininas. Azar o meu, fracasso número 1. Vamos, portanto, em busca de um profissional qualificado, formado em Paris, para dar um jeito em meu cabelo complicadinho de se ajeitar.

A segunda idéia foi: vamos naquela cabeleira que já foi de minha mãe, mas onde mamãe não volta há algum bom tempo. Em uma vez muito passada, a gatchenhah acertou o corte. Ficou ok. Agradou. E eu saí feliz do recinto à beira de um lindo campo de soja – o principal produto agrícola da região, o símbolo da pujança econômica da cidade. Dessa vez, como mamãe não é mais cliente do coração e do bolso, ela não se esforçou nem um tiquinho para me encaixar na fila de atendimento. Disse que só à tarde. Eu disse: Beijo, me liga!

A terceira idéia surgiu durante a volta a uma das inúmeras rotatórias que tornam a cidade uma das poucas planejadas no País. De longe, bem de longe, avistei um centro de estética. Uia, chamou atenção. Agora, sim, uma equipe profissional que me faria virar o ano lindo, esplendoroso e chique. Pronto. Tudo resolvido e de lá sairia com visual, certamente, renovado e diferente. Arrisquei.

O cabeleireiro começou a cortar. Cortava loucamente, aparava aqui, um tanto ali. E cortava. Eu comecei a ficar preocupado, porque parecia não ter um certo critério. Parecia faltar técnica, mas talvez a falta de técnica para o corte justamente fosse a técnica de tal profissional. Pensei, ora. Apenas pensei. Pronto, terminou após eu pedir para tirar mais um dedo de cabelo. É ficou médio. Ficou legal. O cara, então, disse para a mocinha que sorria para mim pelo espelho: agora é só lavar.

Bem, eu muito sério que sou fui lá na cadeirinha com chuveirinho lavar, tirar os cabelinhos que pinicam o pescoço, sabe? Veja bem, fui lá sério muito sério, sem muita abertura, sem muita intimidade. Ela começou, juro, a fazer massagem erótica em meu couro cabeludo. Tudo bem, a moça era simpática e bonitinha, mas não faz definitivamente meu gênero.

Vamos ao diálogo:

Luzes mel no cabelo diz: “Está calor aqui, não?”.
Eu: “Demás!”
Luzes mel no cabelo diz, de novo: “Agora é fim de ano!”
Eu: “Lota muito (tipo, o salão, né, loira?)”
Luzes mel no cabelo diz (uma tonta): “Demais, a cidade ontem estava cheia. Saí e não consegui lugar pra sentar em bar.”
Eu (desconfiado de uma indireta): “Ah, eu não sou daqui, não.”
Luzes mel no cabelo se surpreende: “Ah, não??? De onde?”
Eu, enfadado: “São Paulo.”
Luzes mel no cabelo insiste: “Veio passear?
Eu, seco: “Visitar meus pais.”
Luzes mel no cabelo: “Eles moram onde?
Eu, pensando ‘termina logo essa merda, lava logo e pare de falar’, digo: “Jardim Paris.”
Luzes mel no cabelo, sim, feliz, constata: “Eu também!”
Eu, cansado: “Legal.”
Luzes mel no cabelo elogia: “Seus cabelos são bonitos. Você usa condicionador?”
Eu, dando a deixa: “Xampu, condicionador e mais um monte de cremes. E perfume francês, sacou?”
Luzes mel no cabelo, em vez de entender, empolga-se: “Nossa, cheiroso mesmo!”
Eu, puto: “Terminou?”

Aff, senhor. Quanta chatice. Quanta pergunta sem noção. Quanto xaveco furado. Quanto... Quanto... Quanto... Meu deus. Terminado o corte, ela pega o espelho e tenta, porque não consegue, me mostrar como ficou atrás o cabelo. Eu vou dando as coordenadas para poder ver o estraçalho que fizeram em meus cabelos complexos, deprimidos, reprimidos e neuróticos. Assustei. Ela, desengoçada, mas bonitinha diz: “Não acerto, porque você tem os ombros muito largos, você é muito grande!”... Ah, chega, basta. De canto de olho, mamãe vê um rabinho estilo Menudos, anos 80 total, e denuncia: “Assim, ele não vai gostar e vai querer voltar para arrumar.” Voltar jamais!!! Vamos tentar melhorar já! Fui conduzindo a mocinha... “Corte aqui, um pouco mais, ajusta, acerta, finaliza”. Isso, ficou ótchemoh!!!

Ficou ótchemoh uma pinóia. Chego em casa e Lu, minha prima, boa cabeleireira afetada pela tendinite me diz: “William, o que fizeram com seu cabelo?”... Eu, quase com uma lágrima no canto dos olhos, digo: “Não sei. Sei que erraram, né?”... Sim, erraram. Tudo desigual, tudo diferente. Senhor, Lu, com paciência, tesourinha, sem borrifador, salvou minha vida, salvou 2007, salvou o visual de 2008. Agora, vou dormir mais tranqüilo. Salve, Lu, que não tem luzes no cabelo. Jesuis!

2 comentários:

Gabriela disse...

hahahaha
divertido!
=)

Caco disse...

hahahaha... engraçadíssimo! Adorei! Quero ver o novo corte!