sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Achados e perdidos 2

Escolheu a melhor roupa para si e para o mundo após um longo banho, perfume francês e creme condicionador para os cabelos. Até chegar à decisão acertada, foram minutos de indecisão frente ao espelho entre uma camiseta e outra. Talvez o ideal fosse uma camisa. O restante do conjunto, no entanto, definiu-se rapidamente em calça jeans, como de costume, blazer camurça e All Star azul. Ao fim, optou pela camiseta vermelho carne abençoada por todos os santos, mas naquele dia nem reza brava ajudaria.

Antes de descer as escadas às pressas, aflito e atento ao relógio, impaciente a qualquer possível atraso, checou mais uma vez a combinação. Ok. Pronto, perfeito. De leve, sentiu insegurança e previu desentendimento. Decidiu enfrentar porque não seria a primeira nem a última tentativa. Tenta, tenta, tenta e não desiste nunca, embora a insistência seja exaustiva. Acredita ainda encontrar a felicidade ao virar a rua à esquerda, no balcão da padaria ou no semáforo da próxima esquina. É um tolo porque vai consumi-la e por ela ser consumido.

Correu ao carro que já na rua esperava pela partida. Novamente fitou-se no espelho. Ajustou o cabelo e as sobrancelhas. Sim, estava tudo certo até ali. Puxou o cinto de segurança. Deu partida. Engatou a primeira e saiu em disparada. Para encurtar o caminho, esquematizava inutilmente as melhores rotas alternativas ao trânsito de um dia atipicamente caótico. Escravo do pensamento e da tradição, seguiu as trilhas de sempre. Mentalizou apenas uma rapidez que arrastava o tempo. O esforço revelou-se em vão.

Esbarrou-se com o trânsito e, por alguns minutos, ficou agarrado. Apesar disso, apresentou-se pontual e, conforme o combinado, lá estava impreterivelmente no horário marcado. Esperou. Esperou. Esperou. Ainda espera, talvez. Bastaria uma resposta. Os minutos avançavam e continuava à espera. Por alguns instantes, a irritação culminou em ímpeto de ir embora.

Contra si, resistiu à tentação e, sobretudo, ao orgulho, mesmo sabendo que noutro lugar seria ilusoriamente contemplado pelo desejo recíproco. Ficou e bom tempo depois encontrou corpo mas perdeu a alma. E, depois de tanto, restou-lhe tão somente um olhar piedoso. Ao eliminar as dúvidas e buscar clareza, levanta-se e espera, mais uma vez.

Um comentário:

Fabio disse...
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