quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Cheiros e sabores

Acordei com canto de passarinhos, ao som de uma chuva levemente barulhenta na janela e com cheirinho de café no ar. Desta vez, não era tarde. Despertei cedo, embora o clima recomendasse alguns minutinhos a mais enrolado nas cobertas. Como de costume, abri primeiro o olho esquerdo. Não sei o porquê deste hábito, só sei que é assim todas as manhãs. Os cabelos embaralhados assustam-me diariamente diante do espelho, e sempre foi assim também.

Alegre, não sei por que motivo, fui ao banheiro sorridente. Abri a torneira, juntei as mãos, enchi de água e levei ao rosto inchado, como sempre. Lavei a face, escovei os dentes, voltei ao quarto. Enquanto o cheiro de café perdia a força, escolhi a melhor roupa. Uma composição comum. Calça jeans, camiseta pólo, um tênis moderninho e uma jaqueta, sempre em tons sóbrios. Nunca nada em exagero é permitido. Pronto, desci as escadas vagarosamente, meio dormindo, meio acordado.

Dei bom dia a quem encontrei pelo caminho até a cozinha. Vi Rosas, deitada no sofá, como sempre, e às quintas-feiras trombava com Marias. Tradicionalíssimas, respondiam por suas funções ordinariamente. No entanto, naquele dia algo diferente estava no ar, era café, chuva e canto. Elementos que, em conjunção, riscavam um riso de orelha a orelha em meu rosto sofrido que, embora alegre por momentos, carregava a dor de carências, desilusões e ausências.

Tomei café, só porque ele me esperava desde a hora em que saltei. Em tranqüilidade, coloquei os pães na chapa. Esquentaram e, em seguida, com uma faca de cabo verde fosforescente passei manteiga nas fatias ainda bem quentes. Rapidamente elas esfriaram. Era a chuva acompanhada por café e canto de pássaros que vivem livres. Um copo de leite com chocolate completou a primeira refeição. Retirei-me da mesa e fui à sacada admirar o jardim. Olhei bem as lindas flores coloridas, respirei fundo porque era ar puro e senti-me preparado para seguir. Corri.

Peguei a bolsa de couro legítimo. Juntei alguns papéis e organizei-os dentro de uma pasta. As canetas foram jogadas em algum dos vários compartimentos da velha bolsa desgastada, mas, veja bem, de couro legítimo. Fechei a porta, abri o portão. Sentei, coloquei o cinto, olhei mais uma vez para o espelho e o cabelo agradava. Parti.

Admirava o caminho e, na primeira virada de esquina, senti um forte cheiro de mato. O dia anunciava-se, então, perfeito. Logo cedo já havia tido o canto do pássaro, o barulhinho da chuva na janela e cheirinho de café no ar. Ah, era tudo tão natural não fosse o tudo um sonho e o cheiro de mato, a grama aparada do canteiro central de uma larga avenida sem ar puro, sem cheirinho de café, sem cantarolas de pássaros livres e com uma chuvinha incômoda que pela manhã intensificou o engarrafamento pós-feriado e atordoou o meu dia que nunca, nesta rotina, anuncia-se perfeito. Espero este dia ainda chegar. E ele está logo ali que eu sei.

Nenhum comentário: