quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Pressa

Quando criança, a ansiedade consumia boa parte do tempo. Insônias, desejos, lágrimas eram provocados por uma pressa para viver. Delirava por viver intensamente e, por isso, também se angustiava à espera de algo ou alguém. Alguns momentos de ansiedade da infância eram muito tensos e até torturantes. A cada nova espera, ele sofria dos mesmos sintomas. Sentia palpitação, os olhos arregalavam-se, pés e pernas agitavam-se em ritmo frenético e as mãos gelavam e suavam continuamente. Aguardar calmamente era impossível. Não sabia ele esperar.

A ansiedade é justamente o sentimento de quem que pouco viveu muito precisa experimentar. Ele tinha pressa, por exemplo, para ver o pai chegar. Religiosamente, às 17h o ônibus da firma deixava o pai em casa após um longo dia de trabalho. Vagamente lhe disseram certa vez que o pai saía de casa às 4h30 para trabalhar, mas ele, que acordava às 9h todos os dias, não sabia muito bem que hora era aquela. Ele só sabia que no fim da tarde de todos os dias ganharia bombons, balas ou brigadeiros e um beijo.

Outras esperas também o deixavam aflito, com muita pressa. A espera pelo início de cada ano letivo era afoita para estrear os novos cadernos, usar as novas canetas, ler os novos livros. Conhecia também os novos amigos e as novas professoras. Era muita novidade.

À mesma medida em que desejava o início das aulas também espera, ansioso, claramente, o término dos semestres para o começo de cada férias. Férias, em julho ou em dezembro, eram sinônimo de liberdade. Nessa época, a ansiedade era grande. Precisava correr, e muito, para dar conta de tanta felicidade para tão pouco tempo. O primeiro desejo ao chegar ao interior era pedalar. A cada novas férias, um novo caminho se revelava. Entre um tombo e outro, um palmo de chão mais distante era superado em busca do novo.

E, ainda em busca do novo, continua ansioso. Sempre foi assim. Tem pressa para falar, tem pressa para contar, tem pressa para andar, tem pressa para ler, tem pressa para sentir, tem pressa de viver. Era ansioso pelo resultado do vestibular, pela conquista do primeiro estágio, pela luta no primeiro emprego. Foi ansioso quando do primeiro beijo, da primeira paixão, do primeiro amor, da primeira desilusão. Segue ansioso, apressado, acelerado. Segue ofegante, assim ansioso, sem parar. Seguirá até se encontrar, até te encontrar.

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